Trindade do Sul é uma das cidades mais afetadas pelo coronavírus no RS

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Matéria publicada nesta quinta-feira (28/05) após confirmação de 10 novos casos, mostra o município com o quarto maior índice de contaminação por 100 mil habitantes. Os casos confirmados hoje contabilizam 36 casos, o que colocaria o município entre aqueles que têm maior incidência da doença no Estado. Os dados divulgados levam em consideração o número de habitantes oficial (5,8 mil) divulgado pelo IBGE.

Em Trindade do Sul, todo mundo conhece alguém que está infectado por coronavírus. Do prefeito ao comerciante, do agricultor à senhora que vê a vida passar tomando chimarrão na porta de casa. Em comunidade pequena, os contaminados não ficam anônimos a ninguém.

O município de 5,8 mil habitantes no Norte do RS tem, segundo a prefeitura, 36 casos confirmados da doença. Os dados da Secretaria Estadual de Saúde (SES), atualizados às 18h desta quinta-feira (28), apontam 26 testes positivos. Eles ainda não contabilizam os dez novos casos que, segundo o governo municipal, foram confirmados hoje.

Com 36 ocorrências, a cidade teria uma incidência de 620 casos por 100 mil habitantes, o que colocaria o município na quarta colocação do Estado neste ranking — acima dele estão Lajeado (1541.6), Saldanha Marinho (1076.4) e Garibaldi (869.3), levando em consideração que a SES só considera esse índice como parâmetro para ações quando a quantidade de casos confirmados é maior que 20.

O avanço da doença fez a prefeitura reavaliar o fechamento do comércio mais uma vez. Até sexta-feira, um novo decreto mais restritivo deve ser editado na cidade.

— Aqui a gente sabe de pessoas que pegaram o vírus, algumas já melhoraram. Do jeito que a coisa está, é preocupante. Por isso eu só saio até a minha sacada — conta o agricultor Adelar Ancantara da Rosa, 64 anos, do alto do segundo andar do prédio na Avenida Pinheiro, a principal via do pequeno perímetro urbano da cidade.

Lauro Alves / Agencia RBS

Adelar Ancantara da Rosa, 64 anos, coloca máscaras para secar na varanda
Lauro Alves / Agencia RBS

Na rede de proteção da varanda, uma dúzia de máscaras da família secava ao sol na manhã desta quinta-feira, enquanto ele jogava bola com o filho de seis anos.

— Em 60 dias, aprendemos a conversar pela sacada, jogar bola e entreter as crianças. Vejo a cidade daqui — afirma Rosa, que no Interior do município cria gado e cultiva soja e milho.

O agricultor tem motivos de sobra para zelar por ele e pela família. No Hospital Santa Rosa de Lima, cinco quartos estão reservados para pacientes com covid-19 mas há um único respirador para a cidade. Casos mais graves são encaminhados para Passo Fundo ou Frederico Westphalen, a 112 e 81 quilômetros de distância, respectivamente.

Sem muito constrangimento, Leonelci Pereira, 59 anos, conta que já precisou dispensar, mais de uma vez, visitas que estavam na porta de casa. A agricultora aposentada vive sozinha e diz que, em nome do distanciamento social, combinou de ver os três filhos apenas em chamadas de vídeo, e por isso não abre brecha para quem chega de surpresa.

— Se eu me cuido, se não tenho contato com ninguém, não faz sentido eu receber visitas. Eu digo: volte quando o coronavírus passar. Eu sei de vários que já pegaram, não quero ser a próxima — ensina.

Leonelci Pereira, 59 anos, manda embora pessoas que aparecem de surpresa na sua casa: “Volte quando o coronavírus passar”
Lauro Alves / Agencia RBS

Na cidade, há três linhas principais de contaminação: são sete contaminados no frigorífico da JBS, outros sete casos na empresa Projesul, uma terceirizada da RGE. O terceiro grupo é de moradores que diariamente se deslocam para trabalhar em frigoríficos de Chapecó (SC), a 70km da cidade. A cidade tem um óbito: uma mulher de 70 anos que teve contato com dois profissionais do Serviço Móvel de Urgência (Samu) que estavam com a doença, mas assintomáticos.

O prefeito de Trindade do Sul, Odair Pelicioli, afirma que a cidade testa todos os moradores que têm sintomas de gripe. Os exames são feitos em parceria com o campus de Palmares do Sul da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Foram comprados 500 testes, dos quais 200 já foram executados. Antes da população por o pé nas unidades de saúde, um termômetro mede a temperatura de quem procura o serviço:

— Estamos testando e não estamos escondendo os casos. Acho que agora estamos vivendo o tal do pico da doença — diz o prefeito.

Centro administrativo de Trindade do Sul, onde trabalha o prefeito Odair Pelicioli (na foto), ficou fechado por dez dias
Lauro Alves / Agencia RBS

O próprio centro administrativo da cidade, o local onde o prefeito despacha, precisou ser fechado por dez dias após um servidor testar positivo. O local passou por desinfecção e esta quinta-feira foi o primeiro dia de funcionamento.

— Eu percebo que quanto se tem a notícia de que se têm mais casos vem aquele “ai meu Deus do céu, se cuida”, mas aí é questão de horas e o relaxamento começa a acontecer. Embora a população entenda o risco e esteja se cuidando, muitos se infectam nas relações pessoais da sua vida íntima, na hora do lazer, da confraternização familiar, quando acabam não se cuidando. E aí como é que o poder público vai atuar? É nesse momento que o vírus se propaga.

A grande dor de cabeça do prefeito, no entanto, é a aglomeração nos bancos durante os primeiros dez dias do mês para saque dos salários. A cidade tem apenas duas agências bancárias, uma do Banrisul e outra do Sicredi, e falta opção de locais com caixas eletrônicos:

— Temos 1,4 mil empregos vinculados ao Banrisul. Chega os dias 4 e 5, vira uma loucura. São alguns gargalos complexos. É um dos nossos grandes problemas. É um caos no começo de mês. Já tivemos que multá-los porque era muita gente na agência.

Na cidade, Igrejas e clubes seguem fechadas. Academia podem atender um número limitado de pessoas e proíbe exercícios aeróbicos. Bares e restaurantes têm permissão para atender das 11h às 14h30. O comércio reabriu mas o movimento é mínimo. Funcionários de loja ficam a maior parte do tempo na frente do estabelecimento, cuidando o movimento da avenida principal na esperança que um cliente se anime a entrar.

Leocir Ascoli, 59 anos, faz o mesmo, sentado na janela da sua lanchonete. Ele conta que o movimento está 70% menor que o habitual. Gastos como água, energia elétrica e aluguel estão sendo pagos com ajuda do auxílio de R$ 600 do governo federal que a mulher recebe. Não fosse isso, já teria boletos atrasados. Ainda que esteja com as contas quitadas, Ascoli não é otimista quanto a um eventual cenário de avanço da doença na cidade:

— Se continuar assim por mais dois meses, teremos que fechar. Não vai dar para manter vendendo tão pouco. Não sei o que é pior, ficar doente ou fechar minha lancheria.

Leocir Ascoli, 59 anos, sentado na janela da sua lanchonete de Trindade do Sul
Lauro Alves / Agencia RBS

À frente da Associação Comercial e Industrial de Trindade do Sul, entidade com 67 associados, Gleison Viapiana é contra novo fechamento do comércio e acredita que o funcionamento das lojas não afeta a disseminação da doença. O dirigente argumenta que no interior, serviços como delivery e take away não tem a mesma adesão do que em cidades maiores:

— Cidade pequena sente muito com este fechamento. Tele-entrega aqui não funciona. Não tem demanda. O hábito das pessoas é outro. Nas lojas, o pessoal gosta mesmo é de olhar, tocar, provar. Como vai comprar roupa sem provar? O que adianta o comerciante fechar e as pessoas fazem churrasco, encontros e reúnem amigos?

A cidade de Trindade do Sul

  • 5,8 mil habitantes
  • 36 casos confirmados
  • 620 casos para cada 100 mil habitantes

 

Fonte: Gaúcha ZH

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