A ultramaratonista Jasieli compete no próximo sábado a sua segunda TTT – Travessia Torres Tramandaí

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Em entrevista exclusiva, ela nos contou como foi sua preparação para manter o seu título de atual campeã

Trindade do Sul, mais uma vez verá uma conterrânea sua nos holofotes das ultramaratonas. Jasieli Dalla Rosa, mais uma vez se prepara para disputar, pela segunda vez a TTT – Travessia Torres Tramandaí, a prova mais longa do Rio Grande do Sul, com 81 km.

Do total de 252 corredores inscritos para a prova desse ano, 20% são mulheres, na categoria solo. Além disso, 3,5 mil atletas amadores participarão nas outras modalidades: duplas, quartetos e octetos.

Ela é treinada por Francisco Rainone Junior, mais conhecido por Chico, o treinador de grandes atletas de corrida, e que também é corredor. Competitiva, determinada, motivada, são alguns adjetivos que a definem. Em qualquer competição, sendo no asfalto, nas areias ou nas montanhas, Jasi vai com sangue nos olhos, sempre visualizando a linha de chegada. Seu objetivo não é o pódio, mas sim superar seus próprios obstáculos.

Trindade News: Como atual campeã da TTT, existe muita pressão e expectativa em cima de você?
Jasieli: Como eu morro longe de todo mundo, eu não fico nos holofotes da corrida. Desde o ano passado havia uma pressãozinha, com a guria que era pentacampeã da prova, Daniela Santa Rosa, era essa grande disputa do ano passado. Esse ano a Daniela, não vai correr a prova como corredora, ela vai correr como madrinha. Ela vai ser uma incentivadora durante a corrida.

TN: Quais as dificuldades dessa corrida?
JASI: A gente nunca sabe como vai estar o clima. O que define a TTT é o clima, porque se o vento é favorável, se tiver vento contra, tu já rende bem menos, sente muito mais o peso das pernas. Chuva, ressaca do mar, essas coisas. A previsão é eu tentar fazer uma prova igual ano passado, conservadora, mas mais conservadora, me poupando, por que eu venho muito mais desgastado, do que eu corri ano passado a TTT. Treinada e preparada eu estou, até melhor, em tempo, e motiva eu sempre vou. Acredito que vai ser uma boa prova, como todos me perguntam: “tu quer quebrar o teu próprio record?” Não eu vou deixar para que os outros tentem. Eu vou fazer o que tiver o que fazer. Numa longa distância que vale, nessa ultramaratona, além da resistência física é a mental, quem manda é a cabeça.

TN: Como você conheceu seu treinador, como teve seu primeiro contato com ele, já que ele é de Porto Alegre?
JASI: Na época tinha feito apenas uma de competição de 10 e outra de 21 km, quando alguém de Chapecó me colocou num grupo de WhatsApp, de corredores, neste grupo nacional, com pessoas de outros estados eu falei, ‘bah se eu treinasse com um treinador, será que tem alguém que treinar virtual?’ E um cara de Blumenau me disse que conhecia um cara de Porto Alegre, e me passou o contato dele. Mandei mensagem, ele me disse assim, vamos fazer um teste de pista. Ele me disse também que queria fazer uma maratona, e ver no que dá. Isso foi no início de janeiro de 2017, faz dois anos que sou treinada por ele. Começou a me treinar para junho, fazer a primeira maratona,ele foi vendo potencial, já quis me levar pra ultramaratona e já treinar pra TTT que foi a primeira ano passado.

TN: Como foi sua rotina de treinos para essa prova?
JASI: Tem um volume grande, desde de novembro eu já treinava específico para o TTT. Fiz a prova Summer em dezembro, em parte do trajeto da TTT, onde nós largava numa praia e chegava em Capão. Então ela é uma prova treino também para a TTT. O resto dos treinos eu realizei aqui na cidade, e numa pista que tem em Três Palmeiras no campo municipal, onde treino tiro e velocidade. Os longões, de 35 a 40 km, nos finais de semana, fui obrigada a fazer aqui na cidade porque, nos estamos passando com doença do meu cunhado, e eu não consegui ter apoio, de ter um carro, que me auxiliasse, me batendo, quando ia treinar na RS. Tenho treinos duplos as vezes, um as oito da manhã e outro as oito da noite. Mas a gente nunca treina a distância da prova, uma porcentagem, porque 80 km desgasta. E como eu sou um atleta mais veloz, ele treina muita velocidade comigo, para ser uma atleta mais rápida e normalmente são treinos diversos.

TN: Como você alia a tua rotina diária, com seus treinos?
JASI: A minha propriedade agora sempre é a família, filho, marido. Por isso que acordo 4hr e 30 min e vou treinar, porque quando já é 7 hr eu já terminei meu treino e já estou indo trabalhar. Depois das 5 hr eu tenho pilates, fisioterapia, musculação, quase todos os cinco dias da semana eu tenho uma atividade. Tento dormir cedo, 10 hr tenho que estar na cama para poder acordar 4 e meia da manhã, em épocas que estou cansada tentar dormir mais, e treinar ao meio dia. E tento me virar com a casa, da assistência para a família. Com jeitinho, eu dou conta, organizando os horários, planejando.  É dizer muito não, a vida social também, ou seja, dar prioridades, ver o que você gosta mais.

TN: Quem mais te incentivou a entrar para essa carreira atlética?
JASI: Eu comecei a correr por causa de um casal de amigos, a Patrícia e do Drº Tarciso, porque eles sempre praticaram atividades físicas e começaram a correr. Na época eu só fazia musculação, emagreci, tive uma mudança corporal fazendo apenas musculação. Para melhorar a minha condição de respiração comecei a fazer caminhas e corridinhas com eles, e eles perceberam que minha frequência cardíaca não alterava, significava que eu podia ir mais. Ele começou a dizer que eu tinha algum problema. Foi que eu fiz uma competição de 10 km para brincar, eu e a Patrícia em final de 2015. Eu me diverti, fiz de boas, ela terminou morrendo. Em 2016 fiz minha primeira prova sozinha para competir de 10 km e ganhei pódio, em Chapecó.  A partir daí eles passaram a me incentivar. Eles são sim os meus maiores incentivadores, tanto que hoje eles correm também, vão em provas, eles fazem para, diversão.  

TN: Você também influencia teus amigos e pessoas daqui de Trindade a praticar alguma atividade física, o que você acha sobre isso?
JASI: A gente vê que motiva diariamente pelas redes sociais, toda semana respondendo alguém, desde dicas de um tênis ao que tu come. Aqui eu vi uma mudança muito grande na cidade, é muito legal, de madrugada, quando vou correr já tem muita gente que caminha 5 hr da manhã. Então assim para a vida e para a saúde, não tem coisa melhor, que a gente possa continuar sendo motivo de incentivo para as pessoas.

TN: Montanhas e longas distâncias?
JASI: O meu objetivo é sim ir para as trilhas e montanhas, mas como sou novata, não posso ficar escolhendo provas. O treinador vai vendo a melhor opção de eu parece um pouquinho mais, para questão de patrocínio, valorização. Mas correr na natureza é uma paixão, eu me achei, assim literalmente. Eu fui para seleção de ultra de asfalto, que não era a intenção, mas foi surgindo.
Todo mundo me pergunta: “porque não vai correr a são silvestre?”, mas eu não sou uma corredora de asfalto, não que eu não goste, ou não seja rápida o suficiente, o problema é que eu tenho 35 anos, eu teria que ter começado, com 10, 12, 15, 16 anos, pra correr na elite. Porque para isso você tem que vários índices, ir conquistando, ao longo da carreira e hoje não dá mais nem tempo para mim eu não tenho mais esse tempo. Com 40 anos, tu já reduz o teu ritmo, mesmo mantendo treinando e já nas montanhas não, normalmente tu começa mais tarde, nas trilhas, porque alguém nova acha que é muito sofrido, as vezes tu passa uma noite correndo, tu chega num estado deplorável e já corrida de rua é mais beleza, custa menos, menos tempo de preparo.

TN: Qual a maior experiência que você trouxe do mundial
JASI: No mundial eu aprendi muito assim que tu tem que respeitar o corpo. Dos 100km de prova, eu aguentei até os 70 km. Estava súper bem até os 50 kms, a segunda brasileira mais rápida, muita bem da prova, dentro do que eu tinha planejado, até melhor. Só que a minha viagem não deu certo desde o início e comecei a ter uma gastrite já no sai daqui. E durante a prova a suplementação não ia eu comecei a vomitar depois dos 50km eu aguentei até os 70 km, ai eles te tiram da prova, por conta de você estar passando mal. Apesar disso, contribui com o que eu podia para a seleção, e aprendi demais, porque o pessoal que está lá tem muita história, eu era a mais novata de tempo de corrida, então a mesma forma que eu me espantava de eles ter tudo a história que eles tinham eles se espantavam de eu estar a tão pouco tempo tendo tão bons resultados, 3 anos correndo, 2 sendo treinada.

TN: Quem é a Jasi de hoje?
JASI: Eu mudei muito fisicamente de dez anos pra cá, por causa da atividade física. Mas o que mais mudou, foi espiritualmente, porque a corrida te traz outros valores, te faz ver o mundo de outra maneira. Hoje eu sou menos estressada com a vida, não tão menos, porque a gente costuma dar uns pitit as vezes. Diante dos problemas eu sempre penso, que se acontecendo aquele problema naquele momento é porque tem alguma lição. Tu descobre também com a corrida, que é um ambiente que tem muita gente boa, muito difícil tu encontrar alguém que não seja um ser humano legal, dentro da corrida. Quer dizer que ela transforma pessoas, então isso já é um ganho enorme, para a vida, eu ganhei uma família dentro da corrida. tu aprende com a história do outro, porque a grande maioria tem um motivo por ter começado lá. Pessoas com depressão, problemas na família, alguma morte, todo mundo tem uma história para contar.

TN: Qual a história que você contou?
JASI: Na verdade eu comecei num momento que estava bem perdida, problema no trabalho, que possivelmente eu entrasse para uma depressão, então eu tinha uma escolha para fazer. Eu tinha que focar em algo diferente, não podia me jogar, dizer que a vida era um problema, e foi na atividade física que me foquei, e hoje algumas pessoas podem achar exagero, mas eu não deixo de gostar de outras coisas, ou de gosta menos ou mais da minha família, mas isso é uma paixão, eu amo muito correr, não é pelo título, é pela superação, e por que chegar mais uma vez, eu sempre digo assim que a minha expectativa é atravessa a linha de chegada, ponto final.

TN: A tua maturidade, diante a vida esportiva hoje, te ajudou ou te atrapalhou em alguns aspectos?
JASI: Eu acho que sim, eu talvez não tivesse maturidade suficiente se tivesse começado antes, não teria sabido valorizar isso. Se eu não tivesse tido o incentivo de alguém, porque eu nunca tive vontade. Então acho que foi na hora que tinha que ser. Então eu vou fazer o que dá para fazer, o que permite a idade.

A linha de chegada da primeira TTT de Jasi. Foto: Arquivo pessoal da atleta
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